segunda-feira, 1 de setembro de 2008

No tic-tac das horas.


Eu tenho o meu tempo. Ele é diferente do tempo do resto do mundo. Meu tempo é mais lento, um tempo de artista que talvez ninguém compreenda. Eu passo o meu dia lentamente e gosto de desfrutar dos pequenos prazeres da vida. Porque caso contrário vou perder toda a graça .

O meu tempo é feito de pequenas vontades e meus gestos demoram mais do que os dos outros. Tenho uma estranha mania de achar as coisas belas e de ficar observando por algum tempo. O meu tempo não é o mesmo das grandes empresas, dos sinais de trânsito, das vias rápidas.O meu tempo está mais para a metereologia, está mais para o tempo em que uma onda na beira da praia leva para atingir a areia. O meu tempo está mais perto da velocidade da brisa do campo, está mais próximo do tempo de tragetória de uma maçã caindo de uma árvore. O meu tempo está mais próximo do tempo de duração do prazer sexual.

Posso me enquadrar no tempo do mundo. Posso me conformar com o tempo da comunicação digital, da internet. Até tento ser mais normal como as outras pessoas, acordar cedo, aproveitar melhor o tempo. Eu só não entendo como estamos todos presos a uma temporalidade única. Não entendo esse elo que liga todos os seres-humanos no tic tac das horas. Estamos todos ligados por uma engrenagem maior que controla nossos horários, nossos compromissos, nossas chegadas e partidas.

Estamos tão bitolados em cumprir horários que deixamos para trás o verdadeiro significado de viver. Abandonamos a sabedoria individual de auto-compreensão em nome dessa estranha forma de viver. Não percebemos a lua por que estamos atrazados, não notamos as estrelas por que precisamos chegar na hora marcada em determinado lugar. Somos forçados e ter relógios celulares, agendas ... E o que se torna relamente importante não é o que vc desfrutou hoje, mas o que você fez de útil. Estamos presos a essa utilidade obrigatória, temos de ser úteis.

Acho que devemos ter entrado por placas indicativas trocadas. Fomos pelo caminho da racionalidade, quando reveríamos ter ido pela rua maravilhosa da sinestesia.

Enquanto o mundo continua voraz comendo o tempo de todos, e deixando todos insatisfeitos e sentindo-se inúteis, eu uso o meu tempo a meu favor. Por que eu tenho a vida toda para ser feliz e devo começar agora.

Um comentário:

Lawrence W. Bordignon disse...

Ainda que tenha lido o texto no intervalo entre os dois períodos de trabalho, ADOREI.

Realmente muito bom... Viver, pra mim, só é possível se usar os dois relógios juntos. O meu e o dos outros.

Bj.